Síndrome de Popeye

 

 

      Só por hoje, procurarei viver o dia que passa apenas, sem tentar resolver ao mesmo tempo os problemas da minha vida inteira.

UMA VISÃO PSICANALÍTICA DA DROGA - DEPENDÊNCIA

"Síndrome de Popeye"
Quando um personagem de ficção chega a ter êxito passa a ser um ídolo como foi o caso de Popeye o Marujo, o que significa que de uma ou outra forma canaliza, através de mecanismos de identificação projetiva de massa, uma fantasia que atinge de forma global uma multidão de fãs.
No caso de Popeye, o Marujo, passamos a viver através de nossas fantasias uma onipotência latente.
No caso do Popeye o Marujo o fascinado pela fórmula mágico-onipotente de comer espinafre de modo que em frações de segundos derrotava os mais terríveis facínoras pela força que adquiria na ingestão do espinafre como forma de obter as forças necessárias para realizar as suas inéditas proezas. Na época mães de crianças resistentes para se alimentarem usavam as façanhas do Popeye para induzi-las a comerem, de maneira até exagerada, espinafre.
Comer espinafre na explicação da "Síndrome de Popeye", não representa a mensagem de que se alimentar bem ajuda a sermos saudáveis, mas sim comer espinafre é tornar-se imediatamente um poderoso, transformando-se de forma mágica num personagem ideal mediante o recurso psicológico da identificação projetiva de massa.
Segundo o enfoque psicanalítico kleiniano, seria uma identificação projetiva de massa num objeto interno (internalizado) e idealizado, isto é uma construção narcisista. O símbolo se confunde com o simbolizado.
Relacionando o drogadicto com a "Síndrome de Popeye", vive de forma parcial e total a ilusão de pelo consumo da droga que para o Popeye era o espinafre, representa de forma concreta a onipotência e lhe permite viver uma ilusão transitória de ser o outro que de fraco e medroso torna-se poderoso e corajoso.
Daí passa a ter a vivência de "de quando o desejar" junto com a crença mágica de que esta falácia é dominadora, sendo reversível quando assim o desejar. Em outras palavras, o adicto tenta viver de forma narcisista uma ilusão, interpretando concretamente aquele refrão que diz "de fantasia também se vive".
O usuário de droga não reconhece o adicto que ele representa isto é o escravo da droga que com a ilusão infantil de chegar a um Popeye, que se tornava poderoso ao consumir o espinafre e lamentavelmente não imagina que vai se tornar de forma crescente um ser deteriorado, em última análise um impotente físico, sexual psicológico e social.
A drogadição como "Síndrome de Popeye" é o contrario da liberdade, pois que significa submeter-se a uma trágica escravidão e que de certa forma traça um futuro de grandes desilusões.
Mas, pelo fato de a cocaína bloquear em níveis pré sinápticos, a recaptura das catecolaminas (dopamina e noradrenalina) e recentemente, a isso se acrescentou que o mesmo ocorre com a serotonina, ela possibilita a oferta de um excesso de neurotransmissores no espaço inter-sináptico à disposição dos receptores pós sinápticos, fato biológico cuja correlação psicológica é de uma sensação de grandeza, euforia, prazer, aumento da libido surgindo daí a "Síndrome de Popeye", numa analogia dessa droga com o espinafre do marujo das histórias em quadrinhos.


A Família e o drogadicto

O drogadicto obriga a família a realizar um controle permanente sobre ele provocando uma alteração na organização familiar no qual a família passa a postergar outros problemas preexistentes.
O pai do drogadicto não consegue diante do impacto manter a serenidade e a autoridade, emergindo a imagem do pai modelado numa figura frágil e carente, enquanto que a sua mãe em contrapartida passa a ser a lutadora, pois, que despertam nela traços latentes da mãe que tem o seu "filhote ferido" e enfrenta qualquer perigo, o que ocorre nas selvas quando a fêmea para preservar a sua cria dos predadores enfrentando com galhardia até a morte a sua integridade não ocorrendo o mesmo com o macho que se omite.
Neste instante a família começa a se esfacelar com duas possibilidades ou vive junto porem sem a união que apresenta uma relação de cumplicidade com a ruptura total do casal com vínculo pobre e restrito vivendo como dois estranhos habitando no mesmo espaço, ou o casal se integra baseado no respeito a individualidade de cada um, limitam-se ao viver de forma familiar vegetativa com a constante ameaça de separação.
O drogadicto normalmente requer muitas atenções do grupo familiar buscando gratificações imediatas porque não aprendeu a controlar os seus impulsos na constelação familiar.
Crianças extremamente mimadas ou rejeitadas são fortes candidatas à drogadictos por estas características, Freud mostrou que crianças mimadas são fortes candidatas a fixações orais. Na dinâmica da drogadição tal fixação aparece, e dai fundamentou a clássica descrição da existência na personalidade do drogadicto de ego fraco e incapaz de tolerar frustrações.
A droga pela sua ação química mascara o medo e dá um falso suporte para sustentar o fracasso ou a frustração.
Os drogadictos, em regra geral, são personalidades dominadas por angustias e temores, cuja qualidade e intensidade os convertem como portadores de sentimentos insuportáveis para o seu ego, a insegurança em si mesmo, a baixa estima e a desorganização de seus valores no ser, estar e agir cria uma enorme insegurança, e o medo de ser destruído cria uma forma paranóica violenta que domina este tipo de personalidade, daí a estrutura volúvel do drogadicto que possui uma resistência psicológica muito fraca.

MUSICA

"Onde o que eu sou se afoga
Meu fumo e minha ioga
Você é minha droga
Paixão e Carnaval
Meu zen, meu bem, meu mal"
Autor-Caetano Veloso

Onde é que o "eu", que eu sou se afoga? No amor, na paixão, ou na droga?
E que elos uniriam, porventura, esta última ao objeto do amor (ou do gozo)? Eros ou Thanatos?
E zen: é paixão ou quietude? Prazer ou nirvana? Busca, submissão, desistência ou entrega? Vida ou morte?
E o que, finalmente, pretendia com "carnaval" significar o poeta? A transgressão do proibido, ou algum intervalo autorizado de gozo (se é que isto existe)?
A ambigüidade poética desnuda e esconde os segredos do sentido. E a questão das drogas parece querer dissimular, por trás da obviedade da busca compulsiva de um prazer imediato e irrestrito, os enigmas da existência no mundo ocidental contemporâneo. Onde quer que a droga compareça - seja na clínica ou nas discussões universitárias e acadêmicas - ela sempre busca apresentar-se como a questão essencial. Contudo, quanto mais a encaramos, munidos de olhos e ouvidos psicanalíticos, aquilo que pretende mostrar-se como a questão principal termina por evidenciar-se como mais um sintoma a serviço da tentativa de calar aspectos fundamentais da vida e da subjetividade nos nossos dias. Digo isto sem qualquer intenção de minimizar a relevância do problema: seja para cada drogado, em particular, seja para a sociedade, de modo genérico.